quinta-feira, 1 de outubro de 2015

PÉRIPLOS NA AMAZÔNIA OCIDENTAL: UMA LEITURA DE A EPOPÉIA ACREANA, DE FARIAS GAMA

PÉRIPLOS NA AMAZÔNIA OCIDENTAL: UMA LEITURA DE A EPOPÉIA ACREANA, DE FARIAS GAMA

*
Profa. Dra. Luciana Marino do Nascimento
(UFAC/UFRJ)[1]

Resumo
A Revolução acreana e extrativismo da borracha se entrelaçam como grande feitos na história da Amazônia, de tal modo que motivaram uma série de escritas literárias e historiográficas acerca do Acre. Há, portanto, variadas epopeias cantadas em prosa e verso, após o longo e complexo processo de anexação do Acre ao Brasil: Epopéia Acreana (1919), de Farias Gama; O fim da epopeia (1924), de Craveiro Costa; A Epopéia do Acre (1964), de Sílvio Meira e A Epopéia acreana (1939), de Freitas Nobre. Pretende-se neste trabalho, ressaltar a importância da Epopéia Acreana, de Freitas Gama, tendo em vista ser esta a primeira obra editorada no Acre, publicada sob a forma de folheto, apresentando 6 cantos e um epílogo.

1 Introdução
Ao falarmos o campo semântico Amazônia, nossas referências tendem a conferir um grau de identidade à região no todo, o que se explica pelo longo processo histórico de estabelecimento, de criação e de “invenção da Amazônia” como processo de percepção e apropriações de imagens acerca dessa região, imagens essas imortalizadas pelos relatos dos viajantes, pela literatura e pela mídia. (GONDIM, 1994, p.9).
Dentro de um quadro de heterogeneidade, que é a Amazônia, a leitura mais profícua que se pode fazer dessa região é pela via literária. É nesse sentido, que podemos compreender os passeios literários como mapas textuais da Amazônia.

2  Epopeia Amazônica
Tradicionalmente, a Epopeia constitui um poema épico, cuja narração se dá em torno de acontecimentos históricos de grande relevância para um povo. O Epos assim como o foi na Antiguidade de Homero ou Virgilio não é passível de realização na nossa contemporaneidade, considerando que o épico de Homero foi composto para ser cantado, conforme postula Staiger (1997, p. 118) : “a poesia épica no sentido homérico não pode se repetir”. Conforme já afirmamos anteriormente, a epopéia de Homero está relacionada à oralidade, como também à sua configuração histórico-cultural, ou seja, Homero produziu sua obra levando em conta fatores necessários a sociedade da sua época, cantou os costumes e as normas vigentes em seu tempo, não podendo estes, serem aplicados à sociedade  moderna.
No que tange à questão da Revolução acreana, nota-se na historiografia oficial uma tendência para interpretar a origem desse movimento como manifestação do sentimento antiimperialista de Plácido de Castro e o patriotismo como mola propulsora, que tende a pregar o “direito de ser brasileiro em território boliviano ocupado por brasileiros.” Há todo um passado heróico criado pela historiografia, o que é reforçado pelas epopéias escritas em torno do Acre, sejam elas: O fim da epopéia (1924), de Craveiro Costa; A epopéia do Acre (1964), de Sílvio Meira e A epopéia acreana (1939), de Freitas Nobre. 
Vale ressaltar que a questão do Acre, sua demarcação e sua anexação ao Brasil, se insere num contexto internacional, pelo fato do Acre ser o possuidor de uma grande reserva de látex em seus seringais, produto este essencial, à época, para fins de fabricação de pneus. De fato, o território pertencia à Bolívia e não ao Brasil, se tomarmos por base os mais variados tratados e acordos, desde Bula Papal Intercoetera assinada em 1493, até a cartografia da linhaCunha-Gomes em 1898 (não considerando o Uti Possidetis).(RANZI, 2008, p. 45-48).
A obra A Epopéia acreana, de Farias Gama, tem como temática, a história do Acre, desde a chegada dos nordestinos à sua anexação ao Brasil. Primeira obra publicada no Acre em 1919, sob a forma de folheto de 39 páginas. O libreto representa um achado para o estudo da literatura produzida no Acre, tendo em vista ser obra pioneira, não sendo encontrada no Acre, restando apenas um exemplar na Biblioteca Pública do Amazonas. O único texto sobre A Epopéia Acreana foi publicado no Blog Alma Acreana (almaacreana.blogspot.com). Ressaltamos que não foi possível encontrar dados biográficos acerca do autor.
O poemeto, termo utilizado por Gama, apresenta um esquema único de rimas, constante ao longo do poema, sendo que o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto, e o quinto com o sexto. Todas as estrofes possuem seis versos. O folheto apresenta-se divido da seguinte forma: Esborço– apresentação geral, na qual o autor traça um panorama histórico da Revolução; Introdução – apresenta a narrativa da ocupação da Amazônia (VIII estrofes); Canto I – apresenta a chegada dos nordestinos no Acre (XI estrofes);Canto II – apresenta a narrativa do confronto entre brasileiros e bolivianos (XII estrofes); Canto III – narrativa acerca dos primeiros combates, a rendição dos acreanos, e depois a retomada (XIII estrofes); Canto IV – narrativa das batalhas mais ferozes e sangrentas (XIII estrofes); Canto V –  narrativa dos desdobramentos da Revolta (V estrofes); Canto VI – desfecho final da Revolução e a vitória dos acreanos (XVII estrofes); Epílogo – cita o  assassinato do líder Plácido de Castro (VII estrofes).
Refazendo todo o percurso da história do Acre em versos, com seis cantos e um epílogo,  Farias Gama, anterior ao texto poético, abre seu libretoEpopéia Acreana com o Esborço, no qual apresenta um resumo da história que vai tratar em versos:

Um dia, inimigos de minha altivez, arrojaram-me num cárcere. Foi então que resolvi mais amplamente servir-me desta faculdade, que embora mal, me acompanha desde a infância – o trovar. Rebusquei o motivo. Era a Revolta do Acre. Quis tanger a lira, mas não encontrei-a.
N.F. – Este folheto além de ser a primeira obra literária ideiada , escrita e editorada no Acre, foi acabada em 15 dias, ficando por isso cheio de graves incorreções gráficas e literárias. Desculpas. (GAMA, 1919. p. 1)[2]

Elevando a história do Acre ao caráter de uma epopeia, Farias Gama ilumina o Epos, a partir de uma sedimentação da história da conquista desse território localizado na Amazônia Ocidental. Nesse sentido, recorremos aos estudos de Bakthin sobre a epopéia. Mikhail Bakhtin em Questões de literatura e Estética, afirma ser este um gênero não pertinente ao mundo moderno e contemporâneo. Segundo Bakhtin (2002), a epopeia enquanto um gênero determinado caracteriza-se através de três traços constitutivos: em primeiro lugar, o passado nacional épico, absoluto, serve de objeto da epopeia; em segundo, a lenda nacional atua como fonte da epopeia e em terceiro, o mundo épico é isolado da contemporaneidade, isto é, do tempo de seu autor: “no mundo épico não há lugar para o inacabado, para o que não está resolvido, nem para a problemática. A conclusão absoluta e o seu caráter acabado – eis os traços essenciais do passado épico, axiológico e temporal” (BAKHTIN, 2002, p. 408). Entretanto, cabe ressaltar que o teórico russo nos aponta para a permanência e a presença do Epos na nossa contemporaneidade. Neste sentido, vê-se que o gênero épico reside na literatura palimpséstica e se mantém transformado em diversas obras com intenções épicas, nas quais o autor realiza uma pesquisa estética e histórica antes de escrever a obra. Já na introdução, Farias Gama traz para a cena escrita, a lição dos mestres da épica, inscrevendo em seu texto os mestres do passado:

Ai quem  dera, tivesse eu de Virgílio
ou do alquebrado e desdilezo Homero,
de um a graça gentil doce idílio
de outro o trovar altiloqüente e austero,
para em versos compor esta Epopeia
dos Brazilios Heroes Nova Ulisseia.
(GAMA, 1919, p.5. Introdução)

As narrativas acerca da Amazônia, a caracterizam em inúmeras obras como “inferno verde” e ao adentrar em seus territórios constituem narrativas que se assemelhasse à uma epopeia, tendo em vista que na Amazônia  se viveu uma verdadeira batalha da borracha. A epopeia Amazônia não se restringiu somente às lutas pelo extrativismo da borracha, mas merece destaque o longo e complexo processo de anexação do Acre ao Brasil, tema de A Epopéia Acreana, de Farias Gama.
 Na Amazônia se vivenciou a chegada dos nordestinos em busca do “ouro negro”, tendo em vista que nas terras onde se localiza o Acre havia imensos seringais,  de onde se podia extrair o látex. As terras de fato pertenciam à Bolívia e esta não possuía meios para explorar e colonizar essa faixa de terra e com a omissão da Bolívia, a extração da borracha era feita pelos brasileiros, entretanto, em 1899, a Bolívia arrendou as terras do Acre para oBolivian Syndicate. Farias Gama narra a épica chegada dos nordestinos ao Acre:

                                           I 
Do Ceará, do Rio Grande e muitos
estados do Nordeste brazileiros
acossados dos males mais fortuitos,
emigraram aos milhares forasteiros
que assim fujiam do torrão natal
sob o guante da seca, o grande mal.

                        II
Homens feitos em todos os rigores
da natureza ou do trabalho insano
destemidos audazes peleadores,
eil-os em quatro paus transpondo o oceano.
.....................................................................
(GAMA, 1919.p.8. canto I. I e II)

De acordo com Craveiro Costa, foi dentro de um contexto de revoltas que surgiu a figura de Plácido de Castro, como o herói movido por sentimentos patrióticos, tendo como objetivo a luta pela anexação do Acre ao Brasil. Segundo Correa, a campanha do Acre assim se realizou:
Sob a liderança de Plácido de Castro, os seringueiros brasileiros iniciam a nova  campanha de retomada do Acre ao atacar e tomar a vila de Xapuri, em 07 de agosto de  1902, para concluí-la em 24 de janeiro de 1903 com a  assinatura da carta de rendição da Bolívia após uma ofensiva no Porto do Acre. Três dias depois, em 27 de janeiro de 1903, foi novamente proclamada a República do Acre. (CORREA et al,2010, p. 25.)
 A batalha pela Acre é descrita por Farias Gama com contornos quase que exatos, pois segundo o autor, sua intenção era gravar na memória uma história grandiosa de uma luta de um povo que havia escolhido ser brasileiro: “Este o mérito: ter condensado as narrativas dolorosas e sinceras dos veteranos da Epopéia, esquecidos, abandonados, como o livro o será, dois minutos após o olhar indiferente do leitor.”
A escrita de Farias Gama se mostra portadora de uma crítica ao esquecimento daqueles veteranos que lutaram na Revolução acreana e ao alijamento do território, conforme a última estrofe do Canto VI:

Era finda a revolta. Dispersados,
como feras bravias e perseguidas
os chefes foram, por legais soldados,
em breve eram seus feitos esquecidos
que a Pátria vencedora na contenda
a terra abandonou, só vê a renda.
(GAMA, 1919. p. 20)

Resolvida a questão do Acre com a assinatura do Tratado de Petrópolis, entre Brasil e Bolívia em 17 de novembro de 1903, esteve o Barão do Rio Branco à frente das  negociações, sendo que a Bolívia entregava o território acreano ao Brasil em troca da futura construção da estrada de ferro Madeira-mamoré, para escoamento da produção, mais a quantia de dois milhões de libras esterlinas. (TOCANTINS, 2001).
O libreto representa um achado para o estudo da literatura produzida no Acre, tendo em vista ser obra pioneira, não sendo encontrado no Acre, restando apenas um exemplar na Biblioteca Pública do Amazonas. O único texto sobre A Epopéia Acreanade Farias Gama foi publicado no Blog Alma Acreana. Ressaltamos que não foi possível encontrar dados biográficos acerca do autor e o presente texto representa um esboço preliminar de um estudo e de uma reedição da obra a ser elaborada por nós.

               Figura 1. Capa da Epopeia Acreana. Primeiro livro impresso no Acre- 1919 Cópia
               Fonte: Biblioteca do Estado do Amazonas


Referências Bibliográficas

BAKTHIN, Mikhail. Questões de estética e de literatura. A teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et al.  5 ed. São Paulo: Ed. UNESP, 2002

CORREA, Ana Karolina Ferreira et al. Acre: entre o fuzil e a borracha. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010.
www.geograficas.cfh.ufsc.br. Acesso em 02 /02 /2012.

GAMA, Farias. Epopeia acreana. Rio Branco-Acre, 1919. S. n.t. Cópia digitalizada do Libreto. Biblioteca do Estado do Amazonas- Manaus- AM.

RANZI, Cleusa Maria Damo. Raízes do Acre. 3 ed. Rio Branco: EDUFAC, 2008.
TOCANTINS, Leandro. Formação histórica do Acre. Brasília: Senado Federal, 2001.
STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. 3ª ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

Site Consultado
almaacreana.blogspot.com. Acesso em 01/02/2013.




*Este texto foi originalmente apresentado como comunicação no XII Simpósio da ABRALIC- Associação Brasileira de Literatura Comparada, no âmbito do Simpósio intitulado “Literatura, Cultura e  Identidade na/da Amazônia, por nós coordenado, juntamente com os Professores Doutores Roberto Mibielli (UFRR) e Devair Fioroti (UERR). LITERATURA, CULTURA E IDENTIDADE NA/DA AMAZÔNIA
[1] Docente do Departamento de Ciência da Literatura da UFRJ. [lotação provisória]. Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagem e Identidade da Universidade Federal do Acre. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq- PQ. Este trabalho foi produzido com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.
[2] Foi mantida  a grafia original da obra.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

DISERTAÇÃO> SERINGUEIROS DO MÉDIO SOLIMÕES (José Lino do Nascimento Marinho)


  1. Este estudo assume o propósito de desvendar o espaço simbólico do seringal enquanto   expressão da sociabilidade e representação imaterial do cotidiano vivido, sem deixar de fazer   o registro da resistência política dos seringueiros na Amazônia, especificamente daqueles   residentes no município de Tefé, no Amazonas. O tema seringal é tomado neste estudo não só   como o lugar de exploração econômica, mas e, sobretudo, como o lugar da experiência vivida,   das festas, do imaginário, do cenário de pessoas que fazem história neste território das águas.   O vivido é percebido por meio das narrações dos sujeitos da pesquisa como o lugar onde se   constituiu a experiência individual e coletiva envolvendo as festas, as crenças, as emoções da   vida, o trabalho. A nossa intenção consistiu em procurar sabermos de que forma ocorreu a   subjetivação do seringueiro em meio às agruras opressivas do seringal. A metodologia da   memória é assumida aqui na relação com a experiência vivida no seringal e na cidade de Tefé,   tendo em vista o processo de deslocamento geográfico. A trilha metodológica assumiu o   aporte das abordagens qualitativas, especialmente no que diz respeito à narrativa, em que o   narrador é convidado a falar sobre sua experiência de vida, vivida no seringal amazônico.   Dentre os múltiplos aspectos revelados é patente o fato de que os seringueiros sobreviveram   às doenças letais como paludismo, febre amarela, tifo, beribéri, enfrentado ataque de onças   famintas, cobras venenosas como surucucurana, jararaca, pico de jaca. Ficou claro o fato de   que eles deram o sangue para enriquecer o país, produziram riquezas, mas não tiveram acesso   a elas, foram abandonados pelo Estado brasileiro. Hoje, pobres, cegos, morando em casebres   na periferia da cidade de Tefé. Estes seringueiros já bem doentes, convivem com a triste sina   do herói sem recompensa, esquecidos por completo pelo Estado brasileiro, parece estar   esperando a morte chegar para saírem de cena. Nenhum dos sete seringueiros ouvidos nesta   pesquisa recebe o benefício de aposentadoria como soldado da borracha, sendo esta, uma   dívida do Estado brasileiro que precisa ser resgatada com urgência, enquanto estes bravos   seringueiros ainda tem vida




DISSERTAÇÃO: Soldados da borracha: das vivências do passado às lutas contemporâneas (Lima, Frederico Alexandre de Oliveira)

Neste trabalho, buscou-se a alcançar, sem a pretensão de esgotar o tema, as experiências pessoais vividas por um segmento de trabalhadores chamados Soldados da Borracha, que no período da Segunda Guerra Mundial foram arregimentados no bojo dos acordos firmados entre o Governo Brasileiro e Norte- Americano, objetivando a majoração da produção de borracha, naquele momento essencial a manutenção das operações militares implementadas naquele contexto. Foi nossa intenção trazer a lume suas percepções e compreensões acerca do que viveram e do que vivem, seja nos seus deslocamentos para Amazônia, na sua vida no seringal, em suas experiências urbanas quando do estabelecimento de residência nas cidades amazônicas , seja ainda de suas lutas por reconhecimento como sujeitos de uma batalha não terminada.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Dissertação de mestrado: MULHERES INEXATAS: DIÁLOGOS ENTRE PROSTITUIÇÃO E JORNALISMO NO ACRE


POLLYANA DOURADO DOS SANTOS

A pesquisa em questão delimita-se em uma breve reflexão acerca dos estudos da comunicação, tendo o jornalismo como objeto de investigação e seus processos de mediação. Esta investida metodológica foi produzida a partir da análise do discurso jornalístico e das vozes de prostitutas, ambos situados na capital acriana. Tendo como ponto de partida a discussão proposta pelo conceito de discurso em Michel Foucault (1972), houve aqui a tentativa de problematizar os estudos da comunicação e suas interfaces sociais.



Tese A borracha no Acre: economia, política e representações (1904 - 1945)

O texto discute a formação do Acre durante o ciclo da borracha entre 1904 e 1945, fazendo uma análise da economia, política e das representações. O objetivo principal desse trabalho é analisar a inserção do Acre no contexto do ciclo da borracha, procurando assim contribuir para um debate historiográfico mais amplo sobre esse tema. O foco do trabalho são as empresas seringalistas, elaborando uma narrativa que enfoca a maior de todas elas na região, a N & Maia e Companhia. A tese defende que com a falência do ciclo da borracha a partir de 1910, as empresas seringalistas no Acre que souberam se adaptar a esse cenário de crise foram se consolidando como senhoras dos domínios econômicos, políticos e sociais da região. A tese é desenvolvida dividindo-se em três partes, que contextualizam esse cenário da seguinte maneira: a) uma primeira onde se discute como se formou a mão de obra dos seringais e consequentemente aquela capaz de gerar renda aos seringalistas; b) uma segunda onde elabora-se uma investigação sobre a constituição da cadeia de aviamento da borracha e como as empresas seringalistas conseguiram superar essa rede, que entrou em colapso a partir de 1910; c) a última parte debate com as formas de representação do Acre no período do ciclo da borracha, sendo uma delas oriunda de uma visão senhorial ancorada na opulência e outra que se caracteriza pelos registros de uma região precária e marginal perante o restante da Amazônia.



sábado, 4 de julho de 2015

Em breve, lançamento do livro "A Fundação do Acre: uma história revisada da anexação"


“Este livro é uma tentativa de explicar o processo histórico que resultou na nacionalização do território que hoje compreende o Estado do Acre. O caráter revisionista dele tem a ver com a crítica que faz ao conteúdo epopeico da narrativa divulgada pela história oficial, cuja missão é inventar um passado inaugural glorioso capaz de despertar orgulho nos acrianos. Portanto, essa obra não tem qualquer compromisso de preservar as tradições, os abusos da história e as políticas simbólicas adotadas pelo status quo acriano para sustentar a existência da ideologia do acrianismo e da acrianidade”.

domingo, 14 de junho de 2015

AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO

ARTIGO - memória
AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO
O que segue foi publicado no jornal O Rio Branco em 28 de setembro de 2006. O texto foi endereçado ao governo que tomaria posse no ano seguinte - o do Binho - Uma cópia foi entregue pessoalmente, no começo de 2007, ao já empossado Presidente da Fundação de Cultura Daniel Zen. Nove anos se passaram. O ex-governador mora em Brasilia com a família. O Zen, que à época integrava uma banda pop local que não existe mais, virou politico, antes foi Secretário de Educação. O diretor de teatro citado não faz mais teatro - parece que hoje mora em Rio Branco. O grupo de teatro citado não existe mais. A última versão do Festival de Teatro do Acre quase não contou com peças locais, mormente dos municípios. O ex-governado Romildo vive a lamentar pelos cantos o que deixou de fazer. Quanto aos conselhos dados, fica a critério de cada avaliar se foram seguidos. De minha parte, vejo que os atuais políticos, suas famílias e partidos estão muito bem! Viva a cultura acreana!
AO FUTURO GOVERNADOR DO ACRE E EX-GOVERNADOR DO FUTURO: CONSELHOS DO TEMPO
João Veras*
Há alguns dias, assisti, no teatro Hélio Melo, a peça “Anjos da Noite”, do grupo de teatro “Arte é viver”, do município de Feijó. A apresentação fazia parte da programação do VIII Congresso Acreano de Teatro realizado pela Federação de Teatro do Acre-FETAC com a participação de 12 grupos de teatro de todo o Estado. Feijó tem, hoje, quase 40 mil habitantes. Foi fundado em 1906 e é o segundo maior município do Acre em extensão. Mas Feijó conta apenas com um grupo de teatro e não possui casa de espetáculo. A exemplo dos demais municípios do Estado do Acre, Feijó nunca conheceu qualquer plano de ação cultural. Aliás, nem órgão gestor, nem orçamento o poder municipal tem para a cultura.
Ao final da apresentação, o diretor da peça, Hector Magalhães, que também atua e é o autor do texto do espetáculo, agradeceu a oportunidade da apresentação em Rio Branco, sonho antigo, e falou da velha dificuldade de sempre para se fazer teatro no Acre e da resistência sua e de seu grupo no município de Feijó, essas coisas que nós de Rio Branco e dos demais municípios, que teimamos em fazer arte, muito bem conhecemos.
Visivelmente emocionado, Hector chamou ao palco seu pai, um senhor que estava justamente ao meu lado no escuro do teatro. O senhor que subiu ao palco, para surpresa dos presentes, era Romildo Magalhães. Ex-prefeito de Feijó, ex-deputado estadual e ex-governador do Estado (90/94). A cena comoveu. A plateia dividida entre sentimentos ouvia do ex-governador a declaração de que não conhecia o lado artístico do filho e do orgulho que estava sentindo naquele momento.
Não sei se o evento moveu o ex-governador a refletir sobre as suas gestões na área cultural. É possível. Eu não resisti. A propósito, sai do teatro pensando sobre o tempo e o poder. O mundo gira e não congela nada, mas marca. O que fazemos hoje pode definir, e define, nossos rumos, nossas vidas amanhã. Isto vale também para os administradores públicos que trabalham para o presente e o futuro de vidas, que administram esperanças e são eleitos e pagos para tornar o local em que vivemos e as pessoas e relações cada vez melhores, hoje e amanhã. Já ouvi de um ex-gestor cultural que o poder cega. Muitos creditam a essa cegueira a razão pela qual administradores públicos tanto falham no exercício de seu papel, na consecução de seu dever de administrar a coisa pública para o bem de todos e de acordo com as aspirações destes.
Uso aqui como referência especificamente a área cultural. Tendo em mente as “gestões públicas” nesta área nas últimas décadas. Não conheço os programas dos atuais candidatos ao governo para a cultura. Por tal motivo, resolvi, sem a pretensão da verdade e limitado à minha parca observação da nossa breve história contemporânea, elencar alguns conselhos pertinentes a uma reflexão honesta sobre a importância do poder em nossas vidas e, sobretudo, para o futuro da cultura acreana. O que faço me dirigindo ao governador que administrará o Acre de 2007 a 2010:
1 – Não censure, nem deixe que se censure. Isto é feio, ilegal, imoral e dizem que engorda.
2 – Não elimine, nem deixe que se elimine, quem pensa e se manifesta diferente. Não seja um administrador excludente.
3 – Dialogue. Mais que isso, crie canais de diálogo. Este é o verdadeiro norte para governar.
4 – Não se comporte com indiferença frente a qualquer manifestação do cidadão. Não responder a quem lhe dirige é, além de tudo, falta de educação.
5 – Possibilite a informação e a transparência. Não há razão para que não seja assim.
6 – Não deixe de participar da comunidade e também de possibilitar a participação dela.
7 – Considere e respeite o imaginário do povo. Seus sonhos, criatividades, invenções...
8 – Procure pela arte que se faz aqui. Busque saber do nosso teatro, da nossa música, do nosso cinema, das nossas artes plásticas, da nossa literatura, dos nossos sabores e sentimentos estéticos. Se não conseguir procure saber o motivo.
9 - Procure saber se há cinemas, teatros e bibliotecas nos municípios, assim como as programações dos rádios e televisões, e aproveite para imaginar o que é que as crianças, os jovens e os idosos dos municípios fazem, sobretudo, nos finais de semana. Imagine o que assistem, o que ouvem, o que lêem, o que aprendem a gostar no campo das artes. Quais os seus imaginários e suas aspirações estéticas.
10 – Se pergunte pelo mercado cultural de arte acreana e o que que o Estado pode fazer por ele.
11 – Se pergunte porque as escolas não são usadas como centros culturais, sendo naturalmente isto. Porque que elas não divulgam a cultura local, especialmente a literatura, nem estimulam a criação artística. Porque que a educação artística não é realidade.
12 – Se pergunte porque até hoje não se estabeleceu no Acre uma política pública de cultura. Porque que a imensa maioria das prefeituras não têm órgãos gestores, nem orçamentos, de políticas culturais. Porque o orçamento do Estado para a cultura é tão parco.
13 – Se pergunte porque que o Sistema Público de Comunicação do Estado ainda não conseguiu se fazer espaço das manifestações culturais acreanas, do pensamento, da reflexão e do diálogo, bem como porque que não se estimula que as empresas de comunicação façam o mesmo, e em razão disto porque que as diversas manifestações artísticas acreanas não são conhecidas de nós.

Talvez, no futuro, possamos sentar no teatro para assistir outras cenas do “Arte de viver”, com ou sem ex-governador ao lado, mas com outra qualidade de comoção. Talvez o ex-governador do futuro possa ter consciência de seu presente, orgulho do seu tempo e do que realizou, e não somente orgulho do seu filho. Talvez... Talvez...
*músico, compositor, poeta e membro titular do Conselho Estadual de Cultura

quinta-feira, 23 de abril de 2015

RESUMO: CABRAL, Alfredo Lustosa. Dez anos no Amazonas (1897-1907). 2° ed. Brasília: Senado Federal, 1984.


- Primeira edição em 1949, publicado no Paraíba/ João Pessoa. O subtítulo era: “Memória de um sertanejo nordestino emigrado àquelas paragens em fins do século passado”.

- O autor é Paraibano, (14/01/1883 † 31/12/1960). Depois, chegou a se formar em odontologia. “atraído pela riqueza da borracha foi com um irmão mais velho, tentar a fortuna, na Amazônia. Lá esteve dez anos, de 1897-1907, justamente no período de maior riqueza da região” José Lins do Rego (O Globo, Rio, 1950).

- Devido as mortes indígenas em função da empresa gomífera, ele diz: “Não era sem a sua ponta de razão que o povo, no nordeste, sempre via com maus olhos o dinheiro que chegava no Amazonas. Parecia-lhe um dinheiro amaldiçoado” (idem). - Ficou na Amazônia entre os 10 a 17 anos.

- O Acre como todo o Amazonas foi um grande cemitério de nordestinos.

 

APRESENTAÇÃO (Senador Jorge Kalume, p. 05)

- Escreveu a pedido do professor universitário Octacílio Nóbrega de Queiroz, que apresentou o livro em sua primeira edição. O autor já era de saudosa memória.

 “O heroísmo dos nossos patrícios do Nordeste não pode ser aquilatado apenas pela forma como enfrentaram o fenômeno climático, obrigando muitos a abandonarem, no passado remoto ou recente, a terra mater, em busca de outras plagas, para eles totalmente desconhecidas” p. 5.

OBS: tenta dizer que o nordestino é forte e altivo por ter “escolhido” enfrentar à Amazônia.

- O autor chegou ao Acre (Vila Seabra/Tarauacá) em 1897. Segundo o senador, na época “somente os fortes dos fortes sobreviveriam” p. 6.

 

PREFÁCIL (1° Edição) – Por Octacílio Nóbrega de Queiroz, escrito em junho de 1949.

“O Amazonas é uma torrente de sangue que corre por uma floresta: a floresta é o Brasil” (FRANK, Waldo. America Hispana, p. 165).

“A agitada tragédia da borracha amazonense não tem nada que se lhe possa comparar” (NORMANDO, Evolução Econômica do Brasil, p.48).

- Foi o prefaciador que incentivou o autor a escrever o livro.

“Órfão aos quatorze anos, emigrou, acompanhando o irmão para o Amazonas, onde foi seringalista, mateiro, remador e varejador de canoa, cozinheiro, regatão, agricultor e inspetor de quarteirão... De volta à terra natal, se fez professor primário na Escola Normal da Paraíba, em 1912... depois músico, vereador, rapadureiro, adjunto de promotor por duas vezes e, finalmente, vinte anos mais tarde, já aposentado no exercício do magistério público, cirurgião-dentista pela Faculdade de Medicina e Odontologia do Recife” p. 12.

“Dele (do autor) não podemos abstrair um só instante a sinceridade espontânea da narrativa” p. 12.

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O irmão, Silvino Lustosa Cabral, aos 24 anos, retornou ao Paraíba em 1897, depois de ter ficado no amazonas por cinco anos. No entanto, disse que voltaria.

“ouvia aquelas histórias bonitas, às vezes fantásticas, que ele contava, vem como, da facilidade de enriquecer em pouco tempo. Fiquei logo desejando de conhecer tudo aquilo” p. 23.

“Viajava eu, junto aos tropeiros... com o coração partido de saudade do rincão natal” p. 25.

 OBS: Tudo indica que a idéia de pátria, terra natal, estava mesmo vinculada ao local/região onde se nascia. No Acre, os nordestinos não tinham as terras como suas. Ali defendiam não à Pátria, que era o nordeste, mas a fonte de renda que os levaria novamente a sua terra natal.

- Quando é descoberto que um deles estava com varíola: “Como preventivo, ingerimos fortes goladas de aguardente” p. 29.

“Era um velho barco carcomido pela ação corrosiva do iodo marítimo e do tempo... Vinha cheio como lata de sardinha... A muito custo localizamos nossas redes e bagagens por cima das malas dos passageiros, pois, não havia mais espaço nos porões do navio” p. 29.

- No barco (o Pernambuco) iam “os remanescentes do 27 Batalhão da Paraíba que havia tomado parte na campanha de Canudos... vinha ali também a política do Pará, composta de rapazes moços e fortes” p. 29. Ao todo eram “mais de quinhentos, com destino àquele Estado” p. 30.

“Passamos o resto da tarde ouvindo histórias de Canudos” p. 30.

- O barco ainda rumou para o Rio Grande do Norte para pegar mais pessoas. “Os seus porões não comportavam mais um grilo” p. 31.

“O comandante recebeu uma lista de quinhentos flagelados para o Amazonas” p. 31.

“As redes armadas, duas, três, por cima das outras” p. 32.

“A certa distância da cidade o navio ancorou. Em pouco tempo estávamos rodeados de botes e de catraias com seus balaios repletos de vendagens comestíveis, doces, camarões, frutas etc., para serem vendidas a bordo. Esses negociantes, compostos em maior número de mulheres, eram quase todos negros, poucos brancos viam-se ali” p. 32.

“Não se podia mais tolerar o ambiente de imundície nos porões. Entristecidos, embriagados, vomitando no fundo de redes porcas, jazia uma quarta parte dos passageiros” p. 32.

“estávamos acordados, ansiosos para nos livrar da velha e sórdida embarcação” p. 33.

- Chegado em Belém “Fomos nos hospedar no Hotel das Duas Nações que pertencia a espanhóis e portugueses, razão por que tinha esse nome” p. 33. Era outubro.

“A iluminação, à noite – maravilha fascinante especialmente no largo da Pólvora. Poucas eram as cidades do Brasil iluminadas à luz elétricas, nesse tempo” p. 33.

“O comércio estrangeiro focalizara-se na Praça de Belém atraído pela riqueza da borracha” p. 33.

- De Belém, “o navio saiu direto para Manaus. Gastamos sete dias” p. 33.

- De Belém ao Juruá: 40 dias.

OBS: Belíssima narração da viagem.

“Não existia dinheiro na região” p. 35.

“Meu irmão, guarda-livros e gerente, havia já três anos, era estimadíssimo, e teve, por isso, recepção formidável” p. 35.

“O Sr. João Marques de Oliveira, dono do seringal, bom e maneiroso, não sabia ler” p. 35.

- O mesmo, tão logo o irmão do autor chegara, foi ao nordeste atrás de mais pessoas para o trabalho gomífero. “Trouxe uma companheira de estatura regular, bonita e simpática, alegre e jovial. Contava vinte e quatro anos e chamava-se Maria Mendes Maciel. Era sobrinha de Antônio Conselheiro” p. 36.

“Tinha o nome de brabos os que chegavam ali pela primeira vez” p. 36.

“Na margem oposta do lago moravam dois brabos. Em um domingo, fomos visitá-los. Receberam-nos alegremente. Haviam matado dois mutuns. Estavam em festa. A panela fervia exalando um cheiro agradável, tempero com pimenta e banha do Rio Grande do Sul” p. 37.

“Não eram penas de mutum, e sim de urubu-rei. Tomamos somente uma xícara de café e voltamos à nossa residência” p. 37.

“Aos sábados dirigíamo-nos para o rio com o fim de arrancar, na areia das praias, ovos de tracajá, que havia em abundância nos meses de julho e agosto e os de tartaruga, de setembro e outubro” p. 37.

“Nas safras de tracajá e tartaruga, o seringueiro vive de pança cheio e confortado com os ovos que traz da praia quase todos os dias” p. 38.

“Entramos no rio da esquerda, chegando no seringal Belmonte, de bom leite, com metade a ser explorado. A inconveniência que tinha eram duas malocas dos índios caxinauá e catuquina a pouca distância” p. 40.

“Não acabamos de abrir o mato; quando soubemos que os índios tinham atacado uma barraca de quatro seringueiros. Repelidos a bala, correram” p. 40.

- os índios eram chamados de “os selvagens” p. 40; considerados “inimigos” p. 41.; “ferozes” p. 42.

“Nas correrias o pessoal não se dispersa. Marcha em fileira” p. 41.

- Em 1899 “presenciamos um forte movimento sísmico, que durou uns quatro segundos com tremos de terra e prolongado gemido” p. 42.

OBS: até agora não falou de Galvez. Talvez o ano de 1899 ainda não era tão conhecido assim pelo Juruá.

- O patrão “Era um velho de sessenta anos, violento, enraivecido por qualquer futilidade. Fora capitão do Exército e renunciara à farda para se entregar à cultura da borracha. Estava ali há muito tempo. Enriqueceu...” p. 43.

“Em ajuste de conta com um seringueiro [...] mandou matá-lo e, por causa de uma melancia, tirada na praia sem a devida ordem, matou outro” p. 44.

OBS: quem ia para o Acre já estava disposto a matar ou morrer. “Morria um e chegavam cinco para substituí-lo” p. 53.

 

A REVOLUÇÃO ACREANA (p. 53)

“Para aumento de revezes estourara no rio Acre a luta do seringueiro com a Bolívia, encabeçada por Plácido de Castro” p. 53.

“Plácido de Castro vendo as coisas um pouco turvas enviou ao Tarauacá um emissário com poderes de requisitar forças dando patente de capitão para os donos de seringal que conduzissem pelo menos vinte homens. Todo o rio acelerou-se, todo mundo queria ir” p. 53.

OBS: fica patente a forma como Plácido de Castro arregimentava os patriotas soldados que, quando designados, ficavam pulando de alegria, tudo era melhor do que a tortura da colocação.

“Fato curioso é que, naquela época, segundo ouvi dizer – não tenho certeza -, esteve também por lá o colega Getúlio Vargas (colega na idade e na espingarda) incorporado às forças do coronel Antonio Olímpio da Silveira” p. 53.

“Terminada a guerra, os combatentes proclamaram a independência do rio em República Acreana. Adotaram um pavilhão como símbolo da Pátria e outras coisas mais” p. 54.

“O Governo Federal constituía-se senhor das terras em questão, que dali por diante nem eram República Acreana nem tampouco pertenciam mais ao Estado do Amazonas, e sim ao Brasil” p. 54.

“Foi inaugurada, na foz do rio Moa, a cidade do Cruzeiro do Sul, tendo como Prefeito o General Gregório Thaumaturgo de Azevêdo, que nomeou os tenentes do Exército, Guapindaia, delegado do Juruá, e Luiz Sombra, do Tarauacá, com atribuições de resolverem todos os problemas atinentes ao policiamento e negócios dos rios. Em todos os seringais encontrava-se uma autoridade investida de poderes – o Inspetor de Quarteirão... Todas as brigas e encrencas, que surgiram, eram resolvidas pelo Inspetor que, depois, dava conta ao tenente dos ocorridos em sua circunscrição” p. 54.

“Ali não existia mulher, elemento esse indispensável em toda parte” p. 55.

“Lugar que tem índio não há caça, ele devora tudo” p. 57.

“O seringueiro chega sempre do trabalho da estrada fatigado sem encontrar o que comer” p. 57.

“A umas quinhentas braças de nossa barraca, existia um velho roçado encapoeirado, pertencente a tribo JAMINÁUA que, pressentindo nossa chegada, afugentara-se, havia alguns anos, para mais longe. Viu que nossa invasão a seus domínios era positiva, inexorável. Por esta razão, mudara-se, tornando-se qual nômade, sem um ponto certo de morada. ” p. 65.

“Só não investiam contra a civilização porque tinham a certeza que a reação era tremenda, brutal” p. 66.

“Às onze horas, estava de volta à barraca. Defumei o látex, tomei banho no igarapé, troquei de roupa, almocei... com os companheiros, segui ansioso para dançar e tomar aguardente no barracão. Não existia mulher na festa” p. 67.

“... viviam os índios nas cabeceiras dos afluentes da margem direita do Alto Juruá, inclusive o Tarauacá... A horda de invasores apoderara-se de sua habitações e roçados, enxotando-as a bala para o centro da mata bem distante das margens do rio... Evadiram-se, todavia, os selvagens, com medo, mas cautelosamente ali apareciam para abastecer-se” p. 67.

“O aborígine, como sabemos, é de índole preguiçosa e indolente, desconfiado e ciumento. Quem for a uma aldeia não faça motejo, todo cuidado é pouco... São bastante sadios. Desconhecem moléstias venéreas e seus dentes são quase imunizados da cárie dentária. Raro é o que tem ferida braba... Nunca se vê um índio aleijado. Dizem que se, ao nascer, a criança tiver defeito físico grave, o pai, ordem do chefe da taba, mata-a novinha, pela razão de não poder manter-se com seu próprio trabalho, quando crescer, nem achar quem a sustente... O índio chama o negro de TAPAIÚNA. Odeia-o e tem do mesmo grande aborrecimento... Ninguém quer nem pode trabalhar para o outro. Cada qual cuide de si” p. 68.

OBS: nas páginas seguintes, faz uma descrição pormenorizada da vida cotidiana indígena.

“Trabalhara ali já havia decorrido três anos sem poder libertar-se da conta que, dia a dia, avultava contraída com seu patrão” p. 71.

“No referido lugar morava um seringueiro de nome Paulino de Azevedo Sombra, de Aquiraz, Ceará. Trabalhador, econômico, conseguiu acumular no Contas Correntes do patrão sua meia dúzia ou mais de contos de réis. Crédito era só quem tinha” p. 71.

- O patrão propôs que se Paulinho pagasse a conta do outro, daria a mulher do inadimplente para ele.

“Não é de todo dispensável dizer que eram muito difíceis, naquela época, as relações entre os dois secos. Regiões havia, numa extensão de dez a doze propriedades, onde não se encontrava uma dona-de-casa. A aquisição de uma donzela da selva era tarefa temerária, porque raramente a índia se sujeitava ao regime doméstico. Isso inda podia acarretar o perigo de ser a moça levada pelos da tribo ou haver choques violentos, de parte a parte, transformando-se em intriga que não se acabaria mais. Sob esse aspecto, as uniões de seringueiros com selvagens eram quase nulas” p. 73-74.

“Foi por isso, atendendo a tamanha irregularidade de vida, que, certa ocasião a polícia de Manaus, de ordem do Governador do Estado, fez requisição nos hotéis e cabarés dali de umas cento e cinqüenta rameiras. Com tão estanha carga, encheu-se um navio cuja missão foi a de solta, de distribuir as mulheres em Cruzeiro do Sul, no Alto Juruá [...] não faltou pretendentes” p. 74

“De propósito, convém não esquecer ser o cearense um tipo enérgico, conquistador de terras, afável, trabalhador, valente no momento oportuno, mas divertido e de espírito crítico” p. 76.

 OBS: da página 79 em diante fala de alguns mitos e lendas que assolavam os seringueiros: Curupiara, jabuti, sucuruju, boto, irapuru, mapinguari etc.

- Danças (p. 97).

“Em 1906 já havia posto fiscal federal na foz do Muru” p. 107.

OBS: comenta sobre a inauguração da Vila Seabra.

“Que era esse ambicionado tesouro que vim a conhecer em janeiro de 1907 tão somente em Manaus? A mais luxuosa pensão, o mais empolgante cabaré da América do Sul. Fortemente iluminado, com todas as sortes de jogos, com teatro, era lugar de lindos rostos de todas as partes do mundo – polonesas, francesas, portuguesas, peruanas, brasileiras dos vinte e um Estados, todas, enfim, ali se exibiam numa libertinagem desordenada, doida” p. 108.                                                                                              

“Escravizado oito ou dez anos na selva, sem relações com o sexo oposto, o seringueiro que chegava à cidade, não o deixava de freqüentar. A exploração era roxa. Muitos ali deixavam todo o dinheiro que haviam arranjado com enormes sacrifícios. “Lisos” – restava-lhes ir ao escritório do patrão implorar uma passagem no gaiola e retornar ao seringal de onde saíram” p. 108.

“Ao chefe do barracão cabia o papel de resolver as questões do seu seringal. Existiam no Juruá muitos criminosos de morte, sem a menor punição, até que chegaram fortes censuras aos ouvidos do Governo” p. 120.

“Não existia roubo ou furto, porque se o indivíduo chegasse à barraca de qualquer desconhecido, sem o encontrar em casa, podia servir-se do que entendesse – alimentação, munição, contanto que deixasse um bilhete ou, se não soubesse ler, no soalho da barraca, um sinal qualquer” p. 121.

“O elemento preponderante no Juruá era o peruano e, com este, não tínhamos relações confidenciais. Vez por outra, estavam surgindo desavenças, críticas, aborrecimentos. Começavam por nos apelidar de maquiçapos ou macaquitos... O peruano trabalhava no caucho e vivia como um bicho, arredado no interior da mata, distante, sem contato com os brasileiros, enquanto que este só se enfeitiçava pela seringueira, sempre às margens dos rios ou a três ou quatro horas de viagem destas” p. 121.

 

SOBRE A REVOLUÇÃO ACREANA p. 129.

“O nome de Acre resultou de alteração da palavra Aquire, denominação de um rio afluente do Purus, segundo o geógrafo inglês Chandless (1865), descoberto por um mulato amazonense, Manoel Urbano da Encarnação, ou de aquiri – água corrente do tupi” p. 131.

- Plácido de Castro “Antes de morrer, ferido gravemente, pediu que, morto, seu coração fosse dividido, parte para sua mãe e outra para a noiva, em terras de seu distante Rio Grande” p. 132.



quinta-feira, 12 de março de 2015

O PT e a crise política no Brasil

Entrevista - Lincoln Secco
O PT ainda não entendeu o "antipetismo"?
CartaCapital: O governo Dilma foi alvo no último fim de semana de um 'panelaço' em bairros ricos e de classe média alta. Em resposta, o partido divulgou nota sobre o que chamou de “ato orquestrado pela burguesia”. Como o senhor enxerga esse processo pelo qual o PT passa em seu quarto mandato presidencial? Acha que o partido está em negação dos fatos?
Lincoln Secco: Em primeiro lugar não é uma ação orquestrada da grande burguesia porque nós temos visto indícios, até mesmo na grande imprensa, de que não há uma preferência dos estratos sociais mais ricos pelo impeachment. Obviamente que existem pequenos grupos que organizam manifestações. O que o PT talvez não tenha entendido é que existe um sentimento difuso na sociedade desde 2005 [época do “mensalão”] que é o antipetismo, traduzido pelo discurso anticorrupção, ‘antiaparelhismo’ do Estado, por mais que sejam noções que se aplicam também a governo anteriores. Mas não basta o PT dizer isso porque o partido já está no poder há 13 anos.
CC: Há ainda justificativa para falar de ‘burguesia’ depois de uma eleição tão polarizada? O senhor não acha que o PT não percebeu ainda que perdeu uma parte de seu eleitorado?
LS: O modelo de governo do PT está calcado em uma conciliação de classes, especialmente entre os muito ricos e os muito pobres. Isso deixou uma margem de manobra crítica, enorme, para os setores médios, que não ganharam nada nos governos Lula e Dilma. E é esperado que pessoas que emergiram das classes mais pobres para aquilo que o próprio Lula chamou de “nova classe média” acabe incorporando os valores da classe média tradicional. Isso forma uma base cada vez maior para o antipetismo. Nas últimas eleições, esse estrato social, que eu prefiro chamar de nova classe trabalhadora, se dividiu. Uma parte ficou fiel ao projeto do PT e outra parte migrou para o PSDB.
CC: O PT parece não saber como responder a tudo isso. Como o senhor avalia a postura do partido neste tipo de situação, do ponto de vista do diálogo com a sociedade? Historicamente, o partido sempre teve problema na comunicação?
LS: O PT sempre teve, na verdade, uma dificuldade de acesso à grande imprensa. Quem forma a imagem do PT não é ele, são os meios de comunicação de massa, que têm uma predisposição de crítica maior em relação ao PT. Ficou demostrado já [a postura da mídia] em pesquisas tanto no período em que o PT fazia oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso como no período em que se tornou governo. Mas historicamente o PT nunca se interessou nem em informar sua militância e nem em constituir um aparato de imprensa, uma necessidade histórica do partido.
CC: O 'panelaço' surgiu também em meio à divulgação da lista da Operação Lava Jato. De novo o PT está envolvido em um grande escândalo de corrupção. Como o senhor analisa esse novo episódio na história do partido?
LS: Em primeiro lugar, a lista do Janot não citou nenhum grande nome do PT. Com exceção do Antonio Palocci, que é um nome histórico, mas que já estava inativo politicamente. Então na verdade o potencial destrutivo das acusações atuais sobre o PT é bem menor que em 2005. Acontece que, em 2005, o Lula estava em final de mandato. Então a oposição esperava que sangrando o Lula até as eleições seria suficiente para retirá-lo do poder. Agora a Dilma está no início de mandato. Isso significa que ela vai ter um governo de crise nessas acusações durante quatro anos. Isso que é terrível para o partido.
CC: Vai ter que resistir ao sangramento por muito mais tempo...
LS: E as lideranças de 2005 eram lideranças de primeiro time do PT. Dois ex-presidentes do partido foram para a cadeia. Acredito que não haja paralelo em nenhum partido socialdemocrata do mundo. E também um ex-presidente da Câmara dos Deputados. Pelo menos até agora não é a mesma coisa.
CC: Como biógrafo do PT, qual análise o senhor faz individualmente dos nomes do partido envolvidos na Lava Jato?
LS: O Palocci já havia passado por um transformismo ideológico no início dos anos 1990. Quando foi prefeito de Ribeirão Preto (SP), ele defendeu privatizações, escandalizou o partido num momento em que o PT era mais radical. Teve uma trajetória sempre envolta em mistérios, para usar um eufemismo. Mas o [senador] Lindberg [Farias] é um quadro neopetista errático. Saiu do PCdoB, se dirigiu ao trotskismo, e então se aproximou do PT. Ele não é um quadro histórico do partido. Tanto a [senadora] Gleisi Hoffman [PT-PR] como Humberto Costa [PT-PE] são quadros até que históricos, mas regionais. A Gleisi foi ministra da Casa Civil, mas não tem a importância que aqueles quadros do PT que caíram em 2005 tiveram. É por isso que acho que o problema do PT não está na lista. O problema está nesse sentimento negativo até para a democracia, que está se apossando de parte da sociedade, de que é preciso retirar a presidenta através da força ou impeachment. Quando a gente sabe que não existe nenhuma razão para impeachment no Brasil. Esse é um sentimento difuso.
CC: Sobre o escândalo, parece que toda a raiz é o financiamento privado de campanha, um dos temas mais importantes da reforma política. Como o senhor enxerga o fato dessa bandeira não ter sido prioridade para o PT durante muitos anos e agora explicar a participação do partido no escândalo?
LS: Depois de junho de 2013, o PT se voltou novamente para a defesa da reforma política. A própria presidenta lançou uma proposta, que foi sabotada por pessoas de seu próprio partido na época. E há setores minoritários do PT que fizeram no ano passado uma campanha de marcha pela reforma política. Mas a direção do PT sempre fica em compasso de espera: apoia timidamente e espera a reação da sociedade. Eu acho que o escândalo atual teria como uma saída, por parte do PT, a defesa radical agora do financiamento público de campanha porque o escândalo está especialmente ligado a isso. Está especialmente ligado ao financiamento privado de campanha, mas não há clima no Congresso para uma reforma política desse tipo. É mais fácil acontecer uma contrarreforma.
CC: Como essa que o Eduardo Cunha (PMDB) tem tentado emplacar...
LS: Isso mostra que, na verdade, os escândalos se sucedem, obviamente com um ilícito real no fundo, mas só adquirem expressão pública porque são usados como arma política. No caso, contra o PT. Não quer dizer que não haja ilícito, mas acontece que isso reduz o debate político a um nível mais baixo. Quer dizer, nós não estamos mais debatendo se o projeto social-rentista do governo Lula era correto ou não. Se o PSDB tinha alternativas. Se os dois partidos são parecidos ou não. Nós estamos debatendo crime. Quer dizer, a política está nas páginas policiais.
CC: O senhor acredita que essa nova crise do partido tem relação com o fato do PT ter perdido seus grandes quadros em 2005? O PT vive uma crise de quadros?
LS: Sem dúvida, o PT foi decapitado em 2005. Sobrou o Lula, que nunca foi uma pessoa que se importou em dirigir o partido. Lula sempre falou para fora. Ele deixava a tarefa de falar para dentro para o José Dirceu. Então isso aconteceu com a perda de José Genoino, Dirceu, João Paulo e até em certa medida o afastamento do Palocci. Tudo isso fez com que o partido ficasse acéfalo. Não há mais quadros daquela geração com a mesma grandeza. Agora o problema é que o PT não tem renovação de quadros. É sobretudo um partido de governo que se afastou das suas bases sociais. Isso já é até um chavão, todo petista reconhece. E pelo menos 80% dos quadros atuais do partido são pessoas que entraram depois que o Lula chegou ao poder. Pessoas que nem sempre têm os valores do PT do passado. Existem também aqueles que já eram dirigentes do PT no passado e se tornaram neopetistas. Ou seja, têm um discurso republicano oco para fora e uma prática carreirista, com nepotismo e favorecimento próprio.
CC: O fato de alguns petistas definirem a Dilma mais como um quadro do PDT do que do próprio partido é reflexo disso? Isso explica a crise entre governo e as correntes internas da legenda?
LS: O problema da Dilma é que ela não é nem um quadro histórico do PT, nem tem a dimensão do Leonel Brizola. Ela não pode fazer um governo personalista, “acima das classes sociais”, como fez o próprio Lula, em certa medida, porque ela não tem passado histórico e nem mesmo a competência política. Mas eu acredito que o problema não está nela, o problema está na economia que não sustenta mais aquele pacto social rentista que manteve o governo Lula. Está também na dificuldade que o PT tem de governar nesse presidencialismo de coalizão.
CC: O senhor acha que o PT errou ao não fazer a luta de classes por acreditar que esse “pacto” em que todos ganhavam não teria fim?
LS: É difícil dizer o quanto o partido errou. Na verdade, [o pacto] era um rumo que o partido tomou no fim dos anos 1990 ao fazer alianças para governar para todas as classes sociais. Não foi uma decisão tomada num dado momento. Foi uma evolução histórica de um setor majoritário do partido. Agora esse modelo só conseguia se sustentar enquanto a economia estava crescendo. O que o PT talvez tenha se equivocado era não prever o momento em que o cobertor se tornaria curto para cobrir todo mundo. Só que nesse momento ele teria que fazer opções, mas as opções levariam à radicalização. E a radicalização é tudo aquilo que o petismo governista jamais quis. Então é uma situação aparentemente sem saída. Radicalizar significaria na verdade taxar grandes fortunas, prejudicar o grande capital e transferir recursos para serviços públicos que beneficiassem a própria classe média, que é tão descontente com o governo petista. Mas essa seria uma decisão que acirraria a luta de classes e abriria um horizonte muito incerto para o partido. Conhecendo dirigentes do PT, eles jamais ficariam com isso.
CC: Mas, pelo antipetismo manifestado em ocasiões como essa do ‘panelaço’, não acirrar a luta de classes não evitou que isso acontecesse...
LS: Você matou a charada. O erro do PT é esse. O partido jamais quis acirrar a luta de classes, mas o modelo de governo que ele constituiu, que elevou uma parte das classes pobres socialmente, acirraria inevitavelmente a luta de classes. A luta de classes vai se acirrar independente da vontade do PT. Pela vontade do PT é que ela não aconteça, e que haja conciliação. Então não é um partido preparado para um radicalismo que existe hoje na sociedade. Até porque o PT já foi no passado, mas desde 2002 tem mantido os movimentos sociais ligados a eles adormecidos. E já surgiu uma nova militância nas ruas, tanto à direita, que é menor e mais desorganizada, quanto à esquerda, que é mais organizada, que não tem mais nada a ver com o PT. Então eu acho que, embora a gente não possa comprovar ainda, junho de 2013 deu a certeza a esses estratos médios críticos ao PT que o partido não consegue mais colocar seu exército nas ruas, para usar a expressão do Lula. O PT foi expulso das ruas em junho, ficou indeciso entre a condenação e o apoio. Enfim, junho foi o primeiro movimento de massa desde as greves do ABC e as Diretas Já da qual o PT não participou.
CC: Então, ao manter adormecido os movimentos sociais ligados ao partido, o PT ajudou a criar movimentos populares capitaneados pela classe média tradicional? O governo Dilma deveria ter iniciado suas ações de olho na classe média?
LS: Para lidar com a classe média tradicional, o PT teria que ter feito outro tipo de governo. Um governo que atendesse parte em desejo dos setores médios, que reclamam que pagam muitos impostos e tem serviços públicos ruins. E, ao mesmo tempo, fazer o que ele fez. Levar os mais pobres a um padrão de vida decente. Mas o PT não fez isso no seu governo. Só fez uma parte. A outra coisa é que o PT tinha que ter deixado de demonizar a classe média no seu discurso. Esse vasto setor público, do mundo corporativo, de pequenos comerciantes, é enorme em São Paulo, por exemplo. O PT teve um discurso agressivo contra aqueles que, em tese, queria conquistar. A classe média não é necessariamente reacionária, como o PT diz. Na história do Brasil, ela já teve um comportamento reacionário como, por exemplo, nas vésperas do golpe de 1964, mas se deslocou à esquerda no final dos anos 1970 e sustentou grandes mobilizações nos anos 1980. Tinha até uma certa simpatia pelo PT. Então não é algo imutável, mas o PT não tem capacidade de operação política para mudar isso a curto e médio prazo.
CC: Além do antipetismo crescente, o governo Dilma parece já ter conseguido perder credibilidade junto a seus próprios eleitores. O senhor acha que existe caminho de volta para essa guinada neoliberal?
LS: O problema da Dilma é que ela foi rápida demais. Isso pareceu um estelionato eleitoral para as pessoas que nem são petistas, mas se engajaram na sua campanha com medo da vitória do PSDB. Ela, em pouco tempo, renegou tudo o que havia dito em sua campanha eleitoral. Mas o PT tem uma base social mais abaixo, digamos assim, que é fiel. Ela não é maioria na sociedade brasileira, mas ela é bastante numerosa. Pessoas muito pobres, até com toda razão, temem a queda do governo Dilma porque isso significaria para elas a queda daquilo que elas conquistaram. O problema é que essa camada social, mais pobre e mais fiel, ela não foi representada na arena política. Não foi organizada pelo próprio PT. É um outro equívoco do PT. Jamais ter tentado organizar essa nova base social.
CC: Como o senhor enxerga o futuro do PT depois dessa trajetória, incluindo “mensalão” e Lava Jato e o antipetismo? O partido tem condições de se reciclar independentemente de vitória ou derrota em 2018?
LS: Em primeiro lugar, se o Lula de fato for candidato em 2018, ele seria a salvação do partido, mesmo que não seja eleito. Certamente ele mobilizaria a sociedade em torno da campanha do PT. Se o PT levar à frente os indícios de renovação que tem aprovado no Congresso, como, por exemplo, a limitação do número de mandatos de seus parlamentares, coisa que a gente tem dúvida se vai acontecer, pode ser que o partido continue tendo importância política e ideológica. Mas essas coisas são incertas. Geralmente, diante das crises, a gente tem visto que os dirigentes do PT primeiro se escondem e jogam ao mar aqueles que aparecem na lista. Independentemente do que as pessoas possam achar do escândalo de 2005, cabia ao partido naquele momento ou condenar totalmente aqueles dirigentes ou defendê-los. Do ponto de vista político, a saída para o PT deveria ter sido acirrar a luta política e defender os dirigentes. Mas simplesmente o PT agiu de forma errática. Dirigentes se escondendo...o caso do Delúbio Soares é paradigmático porque ele foi expulso do PT e depois voltou. Como é que o partido pode explicar uma coisa dessa? Se ele foi expulso, não deveria mais retornar ao partido. Naquele momento, o partido considerou que ele era uma pessoa que feria os preceitos éticos.
CC: É a mesma postura que o partido tem tomado diante das denúncias da Lava Jato...
LS: Você compara a nota do PSDB e a nota do PT [sobre o caso]. Salvo engano, a nota do PSDB defende o [Antonio] Anastasia. O PT não defende os seus deputados que estão na lista. Então a primeira coisa que o partido deveria fazer é dizer que acredita na inocência dos seus senadores. Mas não faz isso. O PT, claro, é também um partido muito dividido. Sempre há no partido aqueles que esperam lucrar com a queda do outro. Mas acontece que em um momento de crise tão grave como esse e tendo já a experiência do que foi o "mensalão", o PT deveria, no mínimo, fazer uma defesa pública das pessoas que apareceram na lista.
CC: Então, fazendo uma análise da história do partido, o senhor acha que o PT ainda é um partido de esquerda?
LS: Eu acho que o PT é a esquerda que o Brasil conseguiu ter. Entre os grandes partidos, que tem significação política-eleitoral no Brasil, o partido é partido da esquerda. Obviamente que se a gente pudesse falar de partidos nanicos aí sim, existem partidos com um programa mais radical. Mas no jogo político que interessa o PT é o partido que a esquerda conseguiu ter. Ele vive uma crise que tem raízes no ambiente político em que atua, na sua trajetória histórica, mas também no ambiente da América Latina. Não é à toa que o governo Maduro está em crise na Venezuela. Há uma crise econômica que está deteriorando as bases desse pacto social-rentista. Governos que pregam ideais de esquerda, mas fazem políticas sociais e econômicas visando a conciliação de classe. O caso da Venezuela é mais radical porque lá se prega o socialismo mas se mantém o capitalismo.
CC: Durante o fim de semana, foi noticiado ainda que o governo Dilma Rousseff teria tentado se aproximar do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com o objetivo de se unir nesse momento de crise. Para o senhor, qual o significado por trás dessa postura?
LS: Esse sempre foi o sonho de consumo de uma ala do PT, desde os anos 1990. O José Genoino, o Eduardo Jorge, quando era do PT, sempre defenderam essa aproximação. A própria Luiza Erundina. No momento em que o Fernando Henrique se tornou ministro do governo Itamar, houve muita pressão interna no PT para que o partido apoiasse o governo e fizesse uma aliança com o Fernando Henrique. Também era o sonho de alguns tucanos. Você deve se lembrar que o Fernando Henrique chegou a dizer uma vez que o problema do PT e do PSDB é que eles comandavam setores atrasados. Uma aliança entre os dois, que eram partidos modernos, era impossível devido à polarização ideológica que já havia. Eu acredito que esse talvez seja um sonho da Dilma. Nos últimos anos o PT e o PSDB se tornaram inimigos irreconciliáveis, mas a Dilma não é um quadro histórico do PT. Talvez ela sonhe uma saída dessa crise com uma aproximação do PSDB. Agora ela está fazendo um mandato biográfico. Ao contrário do partido, que, como partido, precisa sempre pensar na luta pelo próximo mandato. E ao contrário do próprio Lula também, que tem pretensões de voltar a ser presidente. Mas só que essa aproximação é bastante improvável. Já que a pergunta é: o que os tucanos ganhariam com isso?